
Cheguei da semana de missão com os sem-abrigo. Ao longo desta semana que passou, eu e mais 8 pessoas dos Missionários Combonianos estivemos na Comunidade Vida e Paz, em Lisboa. Fizemos sandes, lavámos, esfregámos, ajudámos na cozinha, animámos o espaço aberto que recebe sem-abrigo durante o dia, dando-lhes a oportunidade de saírem da rua através de programas de recuperação, andámos à noite a distribuir alimentos e a falar com as pessoas, visitámos as quintas de recuperação onde se faz um trabalho extraordinário e demos apoio espiritual.
A realidade dos sem-abrigo é muito complexa. Cada caso é um caso. Há quem esteja na rua porque não quer mudar de vida e ter responsabilidades, mas a maioria está lá porque a vida entrou na completa ruína. Encontrámos imensos doentes mentais, muitos alcóolicos, prostitutas, toxicodependentes, imigrantes, desempregados, abandonados... O nosso objectivo não era apenas dar comida e roupa. Era também falar com as pessoas e levá-las para a recuperação.
Era preciso rasgar horizontes ao amor, levá-los a lutarem pela sua própria vida e tirar-lhes o vazio provocado pelo materialismo, auto-suficiência e individualismo. Não é fácil, mas é possível. Encontrei muitas pessoas que recuperaram e que são o grande exemplo de como é possível vencer, mesmo quando estamos no fundo do poço.
Deixo-vos as histórias que mais me marcaram pela positiva ou pela negativa:
- Não consigo esquecer as pessoas que saltaram da rua, do álcool, da droga, da prostituição e que são um exemplo de como vale a pena ajudar. Um deles viveu 20 anos na droga... Agora, ninguém o reconhece. Está cheio de vida.
- A necessidade aflitiva de serem perdoados e de se perdoarem a eles próprios. Esta é a razão que leva muitos a continuarem no caminho de “escravidão”, como me dizia um toxicodependente no ex-Casal Ventoso.
- A quantidade de pessoas que estão na rua. Na estação do Oriente, é impressionante o número de pessoas que lá dormem.
- A solidão de um senhor que não é sem-abrigo, mas que foi ter connosco para desabafar.
- A importância de um simples aperto de mão a um sem-abrigo que está sujo, a um doente de SIDA (não ficamos infectados por dar um aperto de mão e esquecemo-nos tanto disso).
- O senhor que diz que é professor de História e está há anos na rua à espera de um barco que o leve.
- Do senhor que só vê a guerra colonial à sua frente e sente orgulho de ter “bombardeado Moçambique, sem deixar lá ninguém”.
- Dos imigrantes que vivem na rua, mas têm trabalho. Estão lá, porque o patrão não paga. Enquanto não arranjarem outro emprego para conseguirem a legalização, lá continuam...
- Das pessoas que quase caíam para cima de nós por causa do álcool, mas que se sentiam bem em ver que os escutávamos, não lhes dando apenas uma sandes.
- Das crianças que vieram pedir leite e pão.
- Do senhor que nos queria dar um euro que ganhou a arrumar carros, porque se o ajudávamos, também nos tinha de ajudar.
O desafio que vos deixo é este: olhemos para a realidade, conheçamo-la e rasguemos horizontes ao Amor. Principalmente ao Amor por aqueles que erram muito e, que, muitas vezes, só precisam de ser aceites e perdoados.
Maria João Garcia
Fé e Missão – Grupo de Jovens dos Missionários Combonianos
Maria João Garcia
Fé e Missão – Grupo de Jovens dos Missionários Combonianos