17/04/07

Voluntariado...

Ao escrever sobre este tema não me sinto a meter a “foice em seara alheia”. O voluntariado tem feito quase sempre parte da minha história de vida. Considero que ser voluntário no IPO, mais concretamente na pediatria deste hospital, não é uma missão para qualquer tipo de pessoa, pois exige uma capacidade muito grande de gerir sentimentos, uma vez que se trata de um contexto marcado por uma grande adversidade.

Mesmo tendo em consideração esse facto, sinto alguma legitimidade em falar do tema, porque também eu já fui voluntária em contextos marcados por uma profunda violência. Na Guiné, convivi com pessoas no limite da sobrevivência, nomeadamente com crianças, uma vez que trabalhei na pediatria de um Hospital. Em Angola, senti na pele a dor da guerra, vi gente a morrer por falta de cuidados médicos, observei feridas em decomposição devido a falta de cuidados de higiene, constatei que muitos não tinham acesso a medicamentos e a alimentos porque estes eram desviados das unidades hospitalares para o mercado negro. Nunca me esquecerei do pensamento que me ocorria várias vezes, quando deambulava pelos corredores daquele hospital angolano: “Se estivesse aqui para ganhar dinheiro, metia-me já no primeiro avião e regressava a Portugal”. No entanto, como o meu objectivo era outro, senti sempre que, enquanto ali estivesse, teria de dar o melhor, ainda que se tratasse de uma verdadeira gota num oceano imenso de carências de todos os géneros e feitios... Não há nestas experiências de voluntariado, contrariamente ao que possa pensar, nada de heróico, uma vez que foram de curta duração e não tive tempo de testar verdadeiramente os limites da minha capacidade. Heróis são os voluntários que permanecem anos a fio a desempenhar tarefas árduas, sem nunca desistir. Esses sim, são dignos da minha profunda admiração! A persistência deve ser uma qualidade do voluntário, pois a distância entre o que é idealizado e o que se encontra no contexto real é enorme. Quem não é capaz de impor uma certa disciplina a si próprio, rapidamente desiste, porque o voluntariado exige uma grande capacidade de abdicação... abdicar de si próprio e das muitas coisas que gostaria de fazer!

Pensando no papel do voluntario na pediatria do IPO, considero que o centro da sua actuação deve ser a criança. Se o voluntário for capaz de suscitar momentos de alegria nos mais pequenos, as mães automaticamente vão sentir-se melhores. Se o voluntário for capaz de criar de tal forma empatia com aquela criança que a mãe pode afastar-se um pouco para falar alguém, para tomar uma refeição, ou até para chorar, então, a sua missão está, diria, plenamente cumprida. Parece-me que não é muito produtivo perder muito tempo com palavras dirigidas aos pais, tais como “força”, “coragem”, “não desanime”. Para quem nunca viveu a experiência da doença oncológica, pode ser difícil compreender que mesmo com toda a força e coragem do mundo, há momentos em que o esmagamento é de tal ordem que só as lágrimas ajudam. Para a Helena, dada a sua idade, a mãe era o centro do seu universo. O meu afastamento era fonte de grande angústia para ela. Por isso, os voluntários tiveram alguma dificuldade em exercer em pleno a sua missão. Reconheço que tentaram, mas a Helena não queria de forma alguma que a mãe se afastasse. A educadora Maria José Figueiredo foi, sem dúvida, aquela que melhor conseguiu estabelecer uma relação de empatia com a Helena e que me permitiu ter momentos de alguma tranquilidade.

Para além desta educadora, com quem estabeleci uma relação muito especial, posso afirmar que conheci voluntários muito bons, entre os quais a avó Gena, que se enquadram perfeitamente neste tipo de actuação. Todos aqueles que, de alguma forma, estabeleceram uma relação de carinho com a minha pequenina, ficarão para sempre no meu coração. O meu sincero obrigado!

Adriana Campos, Psicóloga
2007-04-16

Texto publicado aqui.

2 comentários:

Alexandra Caracol disse...

Adorei conhecer este blogue.

Já andava há algum tempo com vontade de escrever algo sobre trabalho voluntário no meu blogue.

Vir aqui foi um grande incentivo e por isso coloquei um post no meu blogue acerca deste aasunto.

Espero que não se importe de eu ter colocado um link directo para aqui, pois achei muito importante as pessoas tomarem conhecimento da existência deste blogue.

Bem hajam

Alexandra Caracol

Anónimo disse...

Alexandra Caracol,

Todos os que participam neste "blog" ficam felizes por terem um espaço de promoção de voluntariado, um espaço de altruísmo e de dádiva ao outro.

Este "blog", desde que os seus princípios sejam respeitados, pode ser divulgado.

Uma "Voluntária Nova Geração".